Artigos · Psicanálise

Sobre aRepetição

Por que insistimos nos mesmos caminhos que dizem nos machucar?

Por Amanda Brum · 3 min de leitura

Os relacionamentos que terminam sempre do mesmo jeito. O tipo de chefe que reaparece a cada emprego. As mesmas brigas, com pessoas diferentes. A promessa — "nunca mais" — refeita e quebrada. Em algum momento, a pergunta chega: por que sempre eu?

É tentador responder com destino, azar ou defeito de fabricação. A psicanálise responde diferente: o que se repete tem história — e tem função.

Freud percebeu, escutando quem o procurava, que aquilo que não conseguimos lembrar e elaborar, nós repetimos. Em vez de voltar como memória, volta como ato: nos vínculos, nas escolhas, nos impasses. A repetição é o passado insistindo em se apresentar — não para nos punir, mas como uma tentativa, sempre renovada, de dar conta do que ficou sem solução.

O que não encontra palavra, encontra caminho: repete-se.

Por isso os conselhos ajudam tão pouco nesse terreno. Quem repete geralmente já sabe que repete — já leu, já prometeu, já entendeu "racionalmente". Mas a repetição não se desfaz pela compreensão intelectual: ela se desfaz quando aquilo que insiste pode, enfim, ser dito, escutado e elaborado. Freud resumiu o percurso em três palavras: recordar, repetir, elaborar.

Na análise, a repetição deixa de ser um roteiro invisível e passa a ser um texto que se pode ler. De onde vem essa cena que retorna? O que ela tenta resolver? A que fidelidades antigas ela responde? Quando essas perguntas ganham espaço, algo se move: o que era um roteiro fixo abre lugar para escolha.

Não se trata de nunca mais tropeçar. Trata-se de não tropeçar sempre na mesma pedra — e de descobrir que o caminho pode ser outro.

Amanda Brum
Psicóloga · Psicanalista · CRP 05/57096