Artigos · Psicanálise

Sobre aAnsiedade

Quando o corpo antecipa um perigo que a palavra ainda não conseguiu nomear.

Por Amanda Brum · 3 min de leitura

A ansiedade tem sido chamada de "mal do século" — e talvez nenhuma outra palavra circule tanto nas conversas, nas redes e nos consultórios. O coração acelera, o pensamento corre à frente, o sono não vem, o peito aperta. Quem sente conhece bem: é como viver um perigo que ainda não aconteceu.

A psicanálise escuta a ansiedade por um caminho diferente. Antes de perguntar "como fazer isso parar?", ela pergunta: o que essa angústia está dizendo?

Freud notou que a angústia funciona como um sinal. Algo se aproxima — uma perda, uma exigência, um desejo que não ousa se apresentar — e o corpo responde antes que a palavra alcance. Lacan foi além: entre tantos afetos que nos enganam, disse ele, a angústia é o único que não engana. Ela aponta, com uma precisão incômoda, para aquilo que em nós pede passagem.

A angústia não é um alarme com defeito. É um alarme apontando para algo verdadeiro.

Por isso, silenciar a ansiedade a qualquer custo pode ser uma forma de perder a mensagem. Não se trata de recusar cuidados — cada pessoa encontra os apoios de que precisa, inclusive médicos, quando é o caso. Trata-se de não parar aí: por trás da agitação costuma haver uma pergunta que ainda não pôde ser feita. Sobre o que esperam de você. Sobre o que você espera de si. Sobre escolhas adiadas, despedidas não feitas, palavras engolidas.

Ela também tem seus disfarces do dia a dia: a agenda que não pode ter brechas, o celular consultado sem motivo, a dificuldade de dizer não, o corpo que só se percebe cansado quando adoece. A pressa constante, às vezes, é a angústia administrada — funcionando, mas cobrando caro.

Na análise, a ansiedade deixa de ser apenas um incômodo a administrar e passa a ser escutada como parte da sua história. Falando, o que era urgência difusa começa a ganhar contorno: de onde vem, quando aparece, o que anuncia. E o que precisava gritar no corpo pode, aos poucos, se dizer em palavras.

O corpo antecipa. A fala alcança.

Amanda Brum
Psicóloga · Psicanalista · CRP 05/57096