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Sobre aInfância

O que se vive cedo deixa marcas que seguem falando a vida inteira.

Por Amanda Brum · 3 min de leitura

Costumamos pensar a infância como uma fase que passa. Para a psicanálise, ela é mais do que isso: é o tempo em que o sujeito se constitui — quando se formam as primeiras respostas para perguntas que nos acompanham a vida inteira. Sou amado? Tenho lugar? O que esperam de mim?

Freud escandalizou sua época ao afirmar que a infância não é um paraíso neutro, mas um período intenso, atravessado por medos, ciúmes, descobertas e conflitos. O que se vive cedo — nos cuidados, nas palavras ditas e não ditas, nas separações, na chegada de um irmão, nas mudanças — deixa marcas. E essas marcas seguem falando no adulto: nos vínculos que construímos, nos medos que carregamos, no que repetimos sem saber por quê.

Isso não significa culpar os pais. Nenhum cuidado é perfeito — e a psicanálise sustenta algo surpreendente: é justamente porque pais falham que um filho pode se tornar alguém. A falta abre espaço para o desejo próprio. O impossível da perfeição é o que humaniza.

A criança não é um adulto em miniatura: é um sujeito — e tem o direito de ser escutada como um.

Mas há sofrimentos de infância que pedem escuta em tempo real. Medos que paralisam, agressividade que não cede, dificuldades na escola, o corpo que fala — o xixi na cama, as dores sem explicação médica. A criança raramente diz "estou angustiada": ela mostra. Por isso, no consultório, a análise com crianças acontece pelo brincar — brincadeiras, desenhos e histórias são a língua em que a criança conta o que ainda não sabe dizer.

Escutar uma criança cedo não é antecipar problemas: é dar destino ao sofrimento antes que ele se fixe. E, muitas vezes, é também acolher os pais — que ganham um espaço para pensar as formas de cuidado e de comunicação em casa, sem julgamento.

A infância passa. O que ela inscreve, fica. Que fique como potência — não como peso.

Amanda Brum
Psicóloga · Psicanalista · CRP 05/57096