Artigos · Psicanálise

Sobre oLuto

Não se trata de esquecer, mas de encontrar um novo lugar para o que ficou.

Por Amanda Brum · 3 min de leitura

Diante de uma perda, o mundo tem pressa. Alguns dias de licença, algumas semanas de compreensão — e logo chegam as frases: "a vida continua", "você precisa se reerguer", "já passou tanto tempo". Quem está de luto conhece a solidão de sofrer num ritmo que o mundo não aceita.

Freud, em um de seus textos mais bonitos — Luto e melancolia —, propôs algo que segue atual: o luto é um trabalho. Não um estado que o tempo cura sozinho, mas um processo ativo e minucioso, em que a psique precisa, memória por memória, desligar-se do que perdeu — para poder, um dia, religar-se à vida.

E esse trabalho não vale só para a morte. Há lutos de todos os tamanhos: o fim de um amor, uma amizade que se desfez, a saúde que mudou, a casa que ficou para trás, o emprego encerrado, os filhos que cresceram — e até a pessoa que a gente foi e não é mais. Toda travessia importante carrega perdas que pedem elaboração.

O luto não pede que você esqueça. Pede que você encontre um novo lugar para o que ficou.

Não há calendário para isso. Cada luto tem o tempo de quem o atravessa — e as comparações ("fulano já superou") só acrescentam culpa à dor. Quando a perda não encontra palavras, porém, ela pode se fixar: a tristeza vira um modo de vida, o mundo perde a cor, e a pessoa passa a se acusar pelo que sente. É quando a dor de perder o outro se converte, silenciosamente, em perder a si mesma.

A análise oferece ao luto o que ele mais precisa: tempo e palavra. Um lugar onde a perda pode ser contada quantas vezes for necessário — sem o "já era hora de melhorar". Falando, o que ficou encontra morada na memória, e a vida, aos poucos, volta a caber.

Não se esquece quem se amou. Aprende-se a carregá-lo de outro jeito.

Amanda Brum
Psicóloga · Psicanalista · CRP 05/57096